Jornal Rascunho. Curitiba, novembro de 2006.
Entrevista concedida a Rogério Pereira.
A declaração de Milton Hatoum na capa deste Rascunho (“O mundo, para mim, sem a literatura, viraria algo muito chato. Uma coisa sem sentido. Hoje, sem a literatura, não sei o que eu faria. Não faria nada. Seria um bestalhão.”) pode soar como um grande disparate para Flávio Carneiro, autor do recém-lançado A confissão. Doutor em literatura brasileira, esse goiano de 44 anos está longe de considerar a literatura uma das coisas mais importantes desta vida. Prefere o futebol. Parece ecoar como uma bela provocação. “Kafka dizia que a única coisa que lhe interessava era a literatura. Gosto de Kafka, mas não acho que a literatura seja a melhor coisa já inventada. Há coisas mais interessantes. O futebol, por exemplo”, diz com certa ironia. O gosto pelos gols e dribles em nada atrapalha a sua produção literária. Prova disso é a trama de A confissão – romance que o consolida entre os mais importantes autores contemporâneos brasileiros, ao lado do próprio Hatoum e de Cristovão Tezza, Miguel Sanches Neto e João Gilberto Noll, entre outros.
A confissão é uma história estranha. Suas boas doses de fantástico/mágico denunciam o apego de Flávio Carneiro a autores como Borges. Trata-se de um romance se sobrepondo a outro. Ou, então, de muitas histórias dentro de uma história. Uma espécie de roda permanentemente em movimento. A começar pelo protagonista, cujo nome não se sabe e que tem como primeiro objetivo contar uma história. Mas são muitas delas. Estranhas, engraçadas, tristes. Tudo num ritmo dos mais alucinados. Ao leitor, cabe embarcar nessas inúmeras viagens por um mundo estranho e sedutor. O protagonista – que durante muito tempo sobreviveu vendendo livros roubados – amarra uma mulher a uma cadeira e deseja lhe contar algo. A primeira frase do livro é: “A senhora me escute, por favor”. É também um convite ao leitor. Recomenda-se aceitá-lo.
A partir daí, somos conduzidos a situações que vão se misturando, se complicando um pouco mais, se resolvendo, sempre em busca de uma resposta. A mulher presa à cadeira e os leitores se perguntando: “Aonde tudo isso vai nos levar?”. A cada página aumenta a curiosidade para se desvendar o misterioso seqüestro. Quem é o estranho protagonista contador de histórias? Qual será o fim da indefesa senhora na cadeira? Com uma prosa segura e eficiente, o autor nos dá uma convincente resposta.
Nesta entrevista concedida por e-mail, Flávio Carneiro fala sobre sua literatura, sua atuação como crítico literário, a formação dos leitores, literatura policial e, quase nada, sobre futebol.
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