Da matriz ao beco e depois

DA MATRIZ AO BECO E DEPOIS

Rio de Janeiro
Rocco, 1994. 121 p.

Livro premiado pela União Brasileira de Escritores (Prêmio Octávio de Farias).
Sem atender a modelos prévios de gênero, mas criando seu próprio espaço literário, Flávio Carneiro promove, em Da matriz ao beco e depois, a interação do conto, do romance, da novela, do depoimento e do ensaio de forma criativa e inteligente, numa narrativa engenhosa em que os contos/capítulos se entrecruzam numa espécie de labirinto textual.
A doutora em Letras e professora da Universidade Federal do Espírito Santo, Maria Fernanda de Souza Oliveira, comenta: "Da matriz ao beco e depois, de Flávio Carneiro, se organiza da seguinte maneira: dez contos que podem ser lidos em separado, cujas histórias se articulam perfeitamente, seja porque formam seja porque, não formando, engendram em nós a idéia de um todo. São passadas no Rio de Janeiro, entre o centro da cidade e a Praça da Bandeira, mais precisamente entre uma imaginária Rua da Matriz e o beco de mesmo nome.
Nessa localidade literária que dá nome ao livro, moram ou trabalham quase todos os personagens dos contos: escritores, como o famoso Nelson Filho (autor da epígrafe que abre o livro) e o anônimo que o inventou, ou o profissional que vive de escrever histórias segundo o gosto do cliente e recebe uma estranha encomenda: escrever seu próprio epitáfio; suicidas, como D. Alice, encantoada dentro do apartamento por uma avalanche de cartões-postais de um ex-amante abandonado, na verdade falsos cartões, confeccionados cuidadosamente pelo porteiro do edifício; exóticos pensadores, como Libério, que se dedica à pesquisa, inclassificável no rol das ciências, sobre o 'ponto vital' da pedra, pesquisa que o obriga a matar sua esposa, Cássia, a qual, aliás, costuma trancá-lo em casa antes de sair para o trabalho; detetives, como Mandrake e Fonseca, criações do escritor Nelson Filho, que assina o conto "Tardes de verão".
Além de extremamente bem-humorados, os contos são montados a partir de uma combinação de cenas comuns e cenas insólitas - entre outras, a da jovem cantora que um belo dia aparece muda, sem voz, enquanto uma pequenina clave de sol vai se desenhando misteriosamente na palma da sua mão, para desespero do marido, um escritor que não entende -, cujo resultado final é uma narrativa envolvente, que certamente há de agradar tanto ao leitor comum como ao leitor culto."

A propósito de uma escultura

Da matriz ao beco e depois
Não há muito o que dizer sobre Nihlo, a não ser que nessa madrugada em que o invento ele está olhando, estático, para o gesso bruto sobre a mesinha de mármore.
Vai esculpir seu auto-retrato, antes precisa encontrá-lo. Como se não houvesse a limitação, como se de repente desvendasse o segredo, começa alegre, louco, a talhar o gesso. Pouco depois tem a primeira versão do seu rosto cansado. Acende um cigarro, olha-se branco e firme à sua frente, deixa fugir uma lágrima pelas falhas terríveis da escultura. Raciocinando novamente, começa uma segunda versão.
Amanhece. O sol entrando pela janela, batendo por trás de uma cabeça de gesso, dá-lhe a súbita impressão de ser perfeito esse pequeno retrato, menor que o primeiro, depois de retiradas algumas rugas, algumas linhas dos lábios e testa. Outra vez discorda, não tem esse rosto tão redondo, esse queixo tão fino, esses olhos tão estúpidos, sobretudo esses olhos tão estúpidos. É preciso cortar.
Corta. Leva o dia todo e a noite esculpindo a terceira versão, pronta quando é de novo madrugada. Diante da modelada criatura, agora tão pequena que cabe inteira em sua mão, sente-se deus, o deus pretendido. Mas ainda não porque de novo investe contra o branco e continua talhando-se, toque sobre toque no gesso cada vez menos.
Seu último auto-retrato, beirando o invisível, lembra um perigo. Ainda assim dá-se um último talhe e acontece apenas o que estava previsto desde o início.
Realmente não há quase coisa nenhuma a dizer sobre Nihlo, a não ser que no momento em que o vejo, agora, entra pela janela um vento que balança as cortinas e vai espalhar pelo chão o que antes era um, o que sobrou, pó. Nihlo não percebe o gesso polvilhando o chão, talvez porque esteja morto.