{"id":298,"date":"2018-07-28T11:24:29","date_gmt":"2018-07-28T14:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?p=298"},"modified":"2018-07-28T11:24:29","modified_gmt":"2018-07-28T14:24:29","slug":"ilusionismo-verbal-em-o-campeonato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2018\/07\/28\/ilusionismo-verbal-em-o-campeonato\/","title":{"rendered":"Ilusionismo verbal em O Campeonato"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"textodestaquevermelho\" style=\"font-size: 10pt;\">Por Vera L\u00facia Follain Figueiredo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Texto in\u00e9dito, lido no semin\u00e1rio <em>Perspectivas da Literatura Brasileira, hoje<\/em>, ocorrido em 2004, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Um n\u00famero muito grande de narrativas policiais vem marcando o panorama liter\u00e1rio e o cinematogr\u00e1fico ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Deste quadro, pode-se destacar uma vertente que retoma o subg\u00eanero para ajust\u00e1-lo \u00e0s grandes inquieta\u00e7\u00f5es que caracterizam o mundo contempor\u00e2neo &#8211; a trama, girando em torno de crimes variados, est\u00e1 a servi\u00e7o da reflex\u00e3o sobre o extremo ceticismo epistemol\u00f3gico, respons\u00e1vel pela desqualifica\u00e7\u00e3o do real e pela perda de referenciais na cultura p\u00f3s-moderna. A conven\u00e7\u00e3o do romance policial \u00e9, ent\u00e3o, resgatada para que se fale de impossibilidades &#8211; a come\u00e7ar pela impossibilidade de lev\u00e1-la a s\u00e9rio, de seguir \u00e0 risca as regras que lhe seriam inerentes.<\/span><!--more--><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">A literatura e o cinema rel\u00eaem a tradi\u00e7\u00e3o do romance policial, buscando os tra\u00e7os que, desde seus prim\u00f3rdios, j\u00e1 apontavam para a fragilidade das certezas que lhe deram origem. Edgar Allan Poe \u00e9 revisitado, destacando-se, sobretudo, o car\u00e1ter metalingu\u00edstico de alguns de seus textos, lidos, agora, num diapas\u00e3o que paga tributo a Borges. Dialoga-se tamb\u00e9m com o filme noir da d\u00e9cada de 40 e incorporam-se conquistas est\u00e9ticas do melhor cinema europeu do p\u00f3s-guerra, acirrando tend\u00eancias que j\u00e1 estavam presentes nesse &#8220;cinema do simulacro&#8221;, para usar a express\u00e3o de Deleuze. Se a literatura problematiza cada vez mais a enuncia\u00e7\u00e3o, o cinema problematiza cada vez mais o olhar &#8211; ambos questionam sem cessar a premissa epistemol\u00f3gica da objetividade do mundo, trabalhando com a opacidade do significante, ressaltando sempre as media\u00e7\u00f5es que produzem o vis\u00edvel, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia da imagem ou do texto como registro imaculado de alguma coisa que a eles preexistisse. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Num tempo em que a afirma\u00e7\u00e3o da realidade como totalidade independente do sujeito \u00e9 vista como &#8220;neurose fundamentalista, rea\u00e7\u00e3o regressiva de defesa contra a babel p\u00f3s-moderna das linguagens e dos valores&#8221;, como quer Gianni Vattimo, o romance policial \u00e9 citado para que sejam minadas as suas bases de sustenta\u00e7\u00e3o, mais que isso, para p\u00f4r sob suspeita a pretens\u00e3o, que subjaz a toda e qualquer narrativa, de imprimir um sentido aos fatos. O primado da interpreta\u00e7\u00e3o, na modernidade tardia, em que se tende a associar verdade e totalitarismo, afasta a id\u00e9ia de um conhecimento objetivo, abrindo espa\u00e7o, tanto no cinema quanto na literatura, para um tipo de fic\u00e7\u00e3o na qual o grande crime de que se fala \u00e9 o assassinato do real: os outros crimes que comp\u00f5em o enredo tornam-se meros pretextos para que se aponte a fal\u00eancia de qualquer processo de investiga\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 nada a desvendar quando n\u00e3o h\u00e1 nada anterior aos discursos, nenhum referente externo. Se o crime foi sempre um tema recorrente na fic\u00e7\u00e3o, sua onipresen\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o atual, para al\u00e9m das exig\u00eancias de ordem mercadol\u00f3gica, decorre da obsess\u00e3o de tematizar o vazio de sentido causado pela perda do mundo verdadeiro. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">O motivo do crime serve \u00e0 focaliza\u00e7\u00e3o da crise de valores que torna obsoletas as polariza\u00e7\u00f5es que balizaram o pensamento moderno. Atrav\u00e9s dele se apontam as fr\u00e1geis fronteiras entre o permitido e o proibido, chama-se aten\u00e7\u00e3o para o estatuto amb\u00edguo da delinq\u00fc\u00eancia num momento em que tudo se reduz a puro jogo de regras flutuantes. A economia dos capitais vol\u00e1teis, da valoriza\u00e7\u00e3o artificiosa das a\u00e7\u00f5es de grandes empresas, das fraudes cont\u00e1beis, as guerras permanentes, que, como observou Hobsbawm, n\u00e3o t\u00eam in\u00edcio declarado e nem tampouco um fim definido, ou a guerrilha eterna, que j\u00e1 n\u00e3o visa conquistar o poder, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es desse movimento no qual tudo gira sem possibilidade de ancoragem. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Da\u00ed decorre um tipo de narrativa que faz quest\u00e3o de se denunciar como mero truque ilusionista, zombando do leitor ou do espectador que n\u00e3o desconfia do que l\u00ea ou do que v\u00ea, que tende a absolutizar as vers\u00f5es que lhe est\u00e3o sendo apresentadas no texto ou na tela. \u00c0 diferen\u00e7a das in\u00fameras obras que, no passado, j\u00e1 trabalhavam a quest\u00e3o do relativismo da verdade, a fic\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o apenas tematiza o problema, mas se estrutura a partir dele, fazendo o p\u00fablico perder-se no labirinto de desmentidos em que esta fic\u00e7\u00e3o se constitui. A narrativa encerra a sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o: denuncia-se como arbitr\u00e1ria, evidenciando seu descolamento de qualquer referente, ao mesmo tempo em que n\u00e3o abre m\u00e3o de sua capacidade de iludir. O resultado \u00e9 que tanto a percep\u00e7\u00e3o sensorial quanto a racionalidade do leitor ou do espectador s\u00e3o desafiadas, restando-lhe a impress\u00e3o de que \u00e9 incapaz de dar conta do que est\u00e1 diante de seus olhos, &#8220;v\u00edtima da distra\u00e7\u00e3o invenc\u00edvel dos olhares&#8221;, para usar uma express\u00e3o de Foucault. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">No cinema, tira-se partido do fato de que, apesar de tudo estar expl\u00edcito na superf\u00edcie da imagem, nem por isso se consegue apreender aquilo que importa, porque um objeto s\u00f3 se transforma numa pista se o olhar lhe conferir esse valor. Destaca-se, assim, o abismo entre o que \u00e9 mostrado e o que se v\u00ea: &#8220;no hay banda&#8221;, dir\u00e1 repetidas vezes um personagem do filme Mulholland Dr.<sup>1<\/sup>, de David Linch. O personagem, que apresenta um espet\u00e1culo de teatro, repetir\u00e1 a frase, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a voz que se desprende do corpo que a emitiu e se reproduz nos discos, podendo ser associada pela m\u00edmica a um outro corpo que dela se apodera. Se tudo se descola da origem, se n\u00e3o h\u00e1 mais uma origem identific\u00e1vel, n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m lugares fixos, identidades fixas, s\u00f3 o constante deslizamento de vozes intercambi\u00e1veis que oscilam de um corpo a outro. Todos podem assumir o lugar vazio do primeiro int\u00e9rprete porque a m\u00fasica se automizou: &#8220;no hay banda&#8221;, mas o show continua. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Ningu\u00e9m prenunciou mais esta atmosfera e as mudan\u00e7as que ela imprimiria \u00e0 narrativa do que Jorge Luis Borges, a ponto de sua po\u00e9tica, disseminada em escritos ensa\u00edsticos e semi-ensa\u00edsticos, inspirar uma nova vis\u00e3o da literatura e do lugar que ela veio ocupar nas sociedades modernas, como encontramos em uma s\u00e9rie de pensadores como Foucault, Derrida, Umberto Eco, Jauss dentre outros<sup>2<\/sup>. Assim, ser\u00e1 o escritor argentino quem, j\u00e1 em 1941, no Prol\u00f3go a &#8220;O jardim dos caminhos que se bifurcam&#8221;, afirmar\u00e1: <\/span><\/p>\n<div class=\"trecho\" style=\"padding-left: 420px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas p\u00e1ginas uma id\u00e9ia cuja exposi\u00e7\u00e3o oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento \u00e9 simular que estes livros j\u00e1 existem e apresentar um resumo, um coment\u00e1rio<sup>3<\/sup>.<\/span><\/div>\n<p>\n<span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Seguindo a op\u00e7\u00e3o pelo coment\u00e1rio, Borges vai debru\u00e7ar-se tamb\u00e9m sobre livros que de fato foram escritos. D.Quixote , por exemplo, \u00e9 um tema recorrente nos textos do escritor argentino e, talvez, as considera\u00e7\u00f5es que tece sobre o romance digam mais sobre a sua pr\u00f3pria literatura do que sobre a de Cervantes. A partir da leitura de D.Quixote, afirma o fasc\u00ednio pelo maravilhoso e reitera sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 causalidade hist\u00f3rica que presidia a literatura realista do s\u00e9culo XIX. Nesse sentido, ao dizer que &#8220;intimamente Cervantes amava o sobrenatural&#8221;<sup>4<\/sup>, est\u00e1 falando sobretudo de si mesmo. Por isso faz quest\u00e3o de ler D.Quixote n\u00e3o como um ant\u00eddoto das novelas de cavalaria mas como &#8220;uma secreta despedida nost\u00e1lgica&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Borges, partilhando com Cervantes a impossibilidade de transportar-se para os cen\u00e1rios grandiosos de Ariosto, de narrar ingenuamente as aventuras de Simbad, vai elogiar no escritor espanhol a capacidade de recriar o maravilhoso de maneira sutil. Em D.Quixote, a magia retorna pela porta dos fundos de uma fic\u00e7\u00e3o que, tematizando a rendi\u00e7\u00e3o do her\u00f3i \u00e0 for\u00e7a do prosaico, na verdade recupera o mist\u00e9rio pelo vi\u00e9s da estrutura em abismo que desestabiliza as fronteiras entre o real e a fic\u00e7\u00e3o e, assim, acaba por consagrar a vit\u00f3ria do her\u00f3i, a despeito do sentimento de fracasso que dele se apodera ao final da vida. Diz, ent\u00e3o, o escritor argentino: <\/span><\/p>\n<div class=\"trecho\" style=\"padding-left: 450px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Por que nos inquieta que o mapa esteja inclu\u00eddo no mapa e as mil e uma noites no livro de As Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor de Quixote, e Hamlet, espectador de Hamlet? Creio haver dado com a causa: tais invers\u00f5es sugerem que se os personagens de uma fic\u00e7\u00e3o podem ser leitores ou espectadores, n\u00f3s, seus leitores ou espectadores, podemos ser fict\u00edcios.<sup>5<\/sup><\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<p>\n<span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">\u00c9 pelo jogo de espelhamento entre as posi\u00e7\u00f5es do autor, do personagem e do leitor que a fantasia volta para desregular a boa rela\u00e7\u00e3o da ordem do discurso, recusando-se a divis\u00e3o que organiza a fic\u00e7\u00e3o dentro da realidade. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">\u00c9 essa a li\u00e7\u00e3o que Borges vai buscar no autor espanhol &#8211; estender os limites da fic\u00e7\u00e3o at\u00e9 que ela inquietantemente abarque tudo, inclusive o leitor, tornando-se a \u00fanica dimens\u00e3o existente, apesar de ser apenas um sonho: <\/span><\/p>\n<div class=\"trecho\" style=\"padding-left: 450px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">&#8220;O maior feiticeiro (escreve memoravelmente Novalis) seria o que se enfeiti\u00e7aria at\u00e9 o ponto de tomar suas pr\u00f3prias fantasmagorias por apari\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas. N\u00e3o seria esse o nosso caso?&#8221; Conjeturo que assim \u00e9. N\u00f3s (a individida divindade que opera em n\u00f3s) sonhamos o mundo. E o temos sonhado resistente, misterioso, vis\u00edvel, ub\u00edquo no espa\u00e7o e firme no tempo; por\u00e9m aceitamos em sua arquitetura t\u00eanues e eternos interst\u00edcios de sem-raz\u00e3o para saber que \u00e9 falso.<sup>6<\/sup><\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Da\u00ed que em &#8220;Par\u00e1bola de Cervantes e de Quixote&#8221;<sup>7<\/sup>, Borges tra\u00e7a um paralelo entre a vida daquele autor e a de seu personagem, equiparando criador e criatura: Cervantes, um velho soldado, farto de sua terra de Espanha teria procurado consolo nas vastas geografias de Ariosto, ideando um homem cr\u00e9dulo que perturbado pela leitura de maravilhas disp\u00f4s-se a buscar proezas em lugares prosaicos. Diz, ent\u00e3o, Borges:<\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\" style=\"padding-left: 450px;\"><span class=\"trecho\" style=\"font-size: 10pt;\">Para os dois, para o sonhador e o sonhado, toda essa trama foi a oposi\u00e7\u00e3o de dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria, o mundo cotidiano e comum do s\u00e9culo XVII.\u00a0N\u00e3o desconfiaram que os anos acabariam por limar a disc\u00f3rdia, n\u00e3o desconfiaram que a Mancha e Montiel e a magra figura do cavaleiro seriam para o futuro n\u00e3o menos po\u00e9ticas do que as etapas de Simbad ou as vastas geografias de Ariosto.<sup>8<\/sup><\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\">\n<span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Isto \u00e9, Borges afirma a leitura como a inst\u00e2ncia que reencanta o mundo desencantado, como uma esfera que se autonomiza mantendo viva a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Por isso vai considerar obsoleta a pr\u00e1tica de escrever romances &#8211; lendo, como faz Menard, n\u00f3s os reescrevemos. E n\u00e3o devemos supor que essa reescritura ou essa tradu\u00e7\u00e3o seja inferior \u00e0 obra original, pois todo texto seria rascunho, j\u00e1 que n\u00e3o pode haver nada mais do que rascunhos: &#8220;o conceito de texto definitivo n\u00e3o corresponde sen\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o ou ao cansa\u00e7o&#8221;, dir\u00e1 ele. <\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Os textos de Borges antecipam, dessa forma, aquela tend\u00eancia da literatura contempor\u00e2nea para assumir-se como um jogo de espelhos, expondo sua impot\u00eancia para fazer as palavras representarem a realidade, evidenciando seu ceticismo face \u00e0 pretens\u00e3o ocidental de retratar artisticamente essa realidade para transform\u00e1-la. <\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">\u00c9 nessa vertente que se inclui o livro O campeonato, de Fl\u00e1vio Carneiro. O campeonato \u00e9 um romance que p\u00f5e em cena o leitor. O leitor \u00e9 seu grande personagem. Por isso, o livro dialoga com a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria &#8211; n\u00e3o s\u00f3 com o conto de Rubem Fonseca que lhe d\u00e1 o t\u00edtulo, mas tamb\u00e9m com D.Quixote, Mme Bovary, com a fic\u00e7\u00e3o de Borges e com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do romance policial. Assim, a dupla Andr\u00e9 e Gordo nos lembra os personagens de Cervantes, mas tamb\u00e9m evoca outra dupla famosa Sherlok Holmes e Watson, s\u00f3 que com os sinais invertidos, porque no caso de O campeonato, o auxiliar \u00e9 mais astucioso e mais ativo do que o detetive.<\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Demission\u00e1rio da chamada realidade, Andr\u00e9, o personagem principal, \u00e9 um leitor que deseja passar para o outro lado do espelho. Como D.Quixote, quer viver a literatura, e, ao tornar-se detetive, sonha aproximar-se do universo de seus textos preferidos, os romances policiais. Renegando o pragmatismo sem emo\u00e7\u00e3o que costuma pautar o cotidiano das pessoas comuns, \u00e9 visto como um desajustado, um irrespons\u00e1vel, e acaba perdendo seu emprego numa biblioteca por causa do estranho v\u00edcio que o domina: gostar de ler.<\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Suas perip\u00e9cias, entretanto, v\u00e3o levar o leitor do livro a indagar se existem mesmo esses dois lados do espelho, isto \u00e9, se \u00e9 poss\u00edvel separar realidade e fic\u00e7\u00e3o. E \u00e9 a\u00ed que vai residir todo o perigo que amea\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 o personagem mas tamb\u00e9m o leitor. O maior risco n\u00e3o est\u00e1 em negar a realidade para tentar viver como se estiv\u00e9ssemos no mundo ficcional. Est\u00e1 em descobrir que n\u00e3o existe esta fronteira, que n\u00e3o existe nada al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o e que podemos deslizar das p\u00e1ginas do livro para a &#8220;realidade&#8221; e vice-versa sem qualquer obst\u00e1culo, pois n\u00e3o h\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a essencial entre essas duas esferas. Da\u00ed que Andr\u00e9, que s\u00f3 lia fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o lia jornais, vai acabar se interessando cada vez mais pelos notici\u00e1rios. Da mesma forma, o romance, diluindo a oposi\u00e7\u00e3o entre o mundo dos empres\u00e1rios pragm\u00e1ticos e o dos sonhadores como Andr\u00e9 e o Gordo, vai reiterar a id\u00e9ia de que tudo \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. <\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Quando o personagem principal, no in\u00edcio do romance, declarava que a vida real n\u00e3o lhe interessava, partia do pressuposto de que existia uma realidade a ser rejeitada. Ao final do livro, entretanto, vai perder essa c\u00f4moda certeza &#8211; perda que p\u00f5e em risco a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da fic\u00e7\u00e3o, que afinal s\u00f3 existe em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade:<\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\" style=\"padding-left: 450px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Agora eu estava no volante de um carro importado, feito sob encomenda, vestindo terno e gravata, barbeado, perfumado, e com uma pistola enfiada no cinto da cal\u00e7a. Ouvia m\u00fasica cl\u00e1ssica no r\u00e1dio e via a mata atl\u00e2ntica exuberante l\u00e1 fora, pela janela. Era uma cena de romance, eu n\u00e3o podia estar vivendo aquilo, de verdade. Eu precisava de uma prova de que estava vivo, na vida real, de que aquilo era vida real e n\u00e3o mais um dos meus sonhos malucos, ent\u00e3o dei um grito alto.<\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">A desqualififica\u00e7\u00e3o do real gera, ent\u00e3o, a desconfian\u00e7a nas respostas tradicionalmente oferecidas pelo chamado romance de enigma, articuladas pela cren\u00e7a na raz\u00e3o como chave para o conhecimento da realidade. Em contrapartida, vai levar o autor a privilegiar o que, nesse subg\u00eanero, \u00e9 o germe de sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o, constituindo o seu car\u00e1ter potencial de metafic\u00e7\u00e3o: na origem das hist\u00f3rias policiais est\u00e1 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica &#8211; a busca da verdade, a reflex\u00e3o sobre as formas de atingi-la &#8211; e, tamb\u00e9m, algo que chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor para o aspecto constru\u00eddo dessa verdade, ou seja, as artimanhas do discurso l\u00f3gico, o artificialismo de suas conven\u00e7\u00f5es, a face de jogo, de quebra-cabe\u00e7a. Se o romance policial pode ser lido como &#8220;a gesta do esp\u00edrito humano em luta com um mundo opaco<sup>9<\/sup>,&#8221; pode, por outro vi\u00e9s, ser considerado como a alegoria do escritor dispondo e redispondo apar\u00eancias &#8211; \u00e9 esse aspecto da narrativa de enigma, cuja matriz est\u00e1 na fic\u00e7\u00e3o de Edgar Allan Poe, que ser\u00e1 acentuado no livro de Fl\u00e1vio Carneiro. <\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"trecho\"><span class=\"marg\" style=\"font-size: 10pt;\">Podemos, ent\u00e3o, dizer que essa retomada do romance policial, ao realizar-se como uma submiss\u00e3o transgressiva e bem-humorada \u00e0s regras do g\u00eanero, aponta para a continuidade de uma atitude cr\u00edtica, adequada, entretanto, a um tempo pouco afeito a antagonismos r\u00edgidos, a rupturas radicais com par\u00e2metros do passado &#8211; par\u00e2metros que, ao contr\u00e1rio, esse tempo n\u00e3o exclui, mas incorpora e ressemantiza. <\/span><\/div>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>1<\/sup> Produzido em 2001. O filme recebeu no Brasil o t\u00edtulo de Cidade dos Sonhos. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>2<\/sup>A respeito do papel exercido por Borges como precursor do ide\u00e1rio ficcional da p\u00f3s-modernidade, ver as considera\u00e7\u00f5es de Eneida Maria de Souza em seu livro O s\u00e9culo de Borges. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 1999.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>3<\/sup> Fic\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: C\u00edrculo do Livro, 1975, p. 9. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>4<\/sup> Idem. Otras Inquisiciones. Buenos Aires: 1960, p. 66.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>5<\/sup> Idem, ibidem, p. 68<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>6<\/sup> Borges, Jorge Luis. Discuss\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Difel, 1986, p. 102<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>7<\/sup> Idem. O Fazedor. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 1995, p.35. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>8<\/sup> Idem, ibidem, p.35.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><sup>9<\/sup> Boileau, Pierre e Narcejac, Thomas. O romance policial. Trad. Valter Kehdi. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1991.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vera L\u00facia Follain Figueiredo Texto in\u00e9dito, lido no semin\u00e1rio Perspectivas da Literatura Brasileira, hoje, ocorrido em 2004, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Um n\u00famero muito grande de narrativas policiais vem marcando o panorama liter\u00e1rio e o cinematogr\u00e1fico ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas. 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