{"id":233,"date":"2018-05-14T15:18:18","date_gmt":"2018-05-14T18:18:18","guid":{"rendered":"http:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?p=233"},"modified":"2019-05-30T11:37:32","modified_gmt":"2019-05-30T14:37:32","slug":"bastidores-de-um-romance-policial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2018\/05\/14\/bastidores-de-um-romance-policial\/","title":{"rendered":"Bastidores de um romance policial"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Publicado no Jornal C\u00e2ndido (Curitiba), janeiro de 2012<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-size: 10pt;\">Depoimento sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do romance policial O Campeonato<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Todo detetive \u00e9 um leitor. O primeiro detetive de que se tem not\u00edcia na hist\u00f3ria da fic\u00e7\u00e3o policial, Dupin, criado por Poe em \u201cAssassinatos da rua Morgue\u201d, decifra o mist\u00e9rio aparentemente indecifr\u00e1vel lendo as not\u00edcias sobre os assassinatos publicadas nos jornais, e tamb\u00e9m, claro, lendo os signos n\u00e3o escritos \u2013 porque, como todo leitor, um detetive n\u00e3o l\u00ea apenas palavras. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Quando me veio a ideia de escrever um romance policial, a primeira coisa que pensei foi: vou criar um detetive que goste de ler. N\u00e3o um leitor comum, imaginei algo mais radical \u2013 um leitor viciado em leitura. E viciado em leitura de romances policiais. Assim surgiu o narrador de O Campeonato, Andr\u00e9, e o seu v\u00edcio maldito, que o leva a perder um emprego atr\u00e1s do outro, o \u00faltimo deles numa biblioteca (foi pego algumas vezes lendo escondido num canto qualquer, enquanto os usu\u00e1rios aguardavam atendimento). <\/span><\/p>\n<p><!--more--><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Como em todo romance ou conto, policial ou n\u00e3o, achar a voz certa para o narrador \u00e9 tudo. Voc\u00ea pode ter um enredo chinfrim, se tiver um bom narrador ter\u00e1 uma boa hist\u00f3ria. Machado de Assis sabia disso (afinal, quem faz de Dom Casmurro um romance genial n\u00e3o \u00e9 o enredo, bastante simpl\u00f3rio, mas o narrador Bentinho). <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Ent\u00e3o precisava achar um narrador para o meu romance e pensei num narrador detetive, com algo diferenciado. Exagerei no gosto dele pela leitura e este ficou sendo um dos seus tra\u00e7os principais. O outro era a juventude. N\u00e3o queria um detetive experiente, queria algo que fugisse um pouco \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, sem no entanto fugir ao g\u00eanero. Isso \u00e9 importante: se voc\u00ea opta por experimentar demais, transgredir demais, acaba saindo do g\u00eanero policial. Eu queria fazer um romance policial com cara de romance policial. E que trouxesse alguma novidade. Esse foi ent\u00e3o o motivo por ter criado um narrador detetive de 26 anos que sabe tudo de assassinatos, pistas, criminosos, v\u00edtimas, sem nunca, por\u00e9m, ter investigado um caso sequer. Sabe como leitor. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Criado o narrador \u2013 ou pelo menos seu esbo\u00e7o, porque o narrador s\u00f3 vai sendo criado mesmo quando voc\u00ea passa a colocar palavras em sua boca, ou seja, quando ele de fato come\u00e7a a contar a hist\u00f3ria \u2013, parti para o segundo passo: inventar seu assistente. N\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio que o detetive tenha um assistente. Na tradi\u00e7\u00e3o do romance negro, por exemplo, muitas vezes n\u00e3o existe o assistente, que \u00e9 tamb\u00e9m uma cria\u00e7\u00e3o de Poe, revista e ampliada por Conan Doyle ao criar Watson, e est\u00e1 presente no chamado romance de enigma. Mas achei que seria interessante o Andr\u00e9 ter um assistente e pensei num personagem sem nome, que seria designado por seu apelido: Gordo. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">O Gordo tamb\u00e9m \u00e9 um leitor apaixonado por romances policiais, embora n\u00e3o chegue a ser obsessivo como o Andr\u00e9, que o admira sobretudo pelo incr\u00edvel autocontrole de trabalhar numa livraria (o Gordo \u00e9 vendedor numa livraria no centro do Rio) e nunca ler durante o expediente. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Quis tamb\u00e9m fazer uma pequena invers\u00e3o no que estamos acostumados a ver nos policiais cl\u00e1ssicos, em que o detetive \u00e9 mais astuto que seu assistente. Pensei no meu detetive como um leitor que sabe observar e articular signos \u2013 \u00e9 isso que define o detetive, sua capacidade de saber o que observar e o que fazer com aquilo que observou \u2013, e quis que seu assistente fosse um pouco mais frio na leitura das pistas e tivesse o racioc\u00ednio mais r\u00e1pido. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Como o leitor do romance saberia dos fatos apenas pelo olhar do Andr\u00e9, achei que seria uma boa estrat\u00e9gia colocar o Gordo como mais astuto. Dessa forma, assim como, em algumas cenas, Andr\u00e9 se surpreende com as sacadas do Gordo, o leitor tamb\u00e9m se surpreenderia. Este, ali\u00e1s, \u00e9 um velho truque, que Conan Doyle conhecia bem: o narrador \u00e9 sempre aquele que sabe menos. O leitor acompanha a hist\u00f3ria pelo olhar de Watson e fica surpreso, como o narrador Watson, a cada dedu\u00e7\u00e3o brilhante de Sherlock \u2013 se fosse o contr\u00e1rio, se soub\u00e9ssemos o que Sherlock est\u00e1 pensando a cada p\u00e1gina, talvez ele n\u00e3o fosse o heroi que \u00e9, porque ter\u00edamos acesso a suas d\u00favidas e erros, como temos acesso \u00e0s d\u00favidas e erros de Watson. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Fiz ent\u00e3o essas pequenas mudan\u00e7as no formato tradicional do g\u00eanero: um detetive viciado em romances policiais, jovem, inexperiente, e com um assistente que sabe mais do que ele. Faltava agora o cen\u00e1rio e isso n\u00e3o foi dif\u00edcil porque este romance \u00e9 o primeiro de um projeto que chamei de Trilogia do Rio de Janeiro. A ideia era escrever tr\u00eas romances passados no Rio, cada um dialogando com um g\u00eanero popular diferente. Da\u00ed nasceu O Campeonato (policial), A Confiss\u00e3o (fant\u00e1stico) e o rec\u00e9m-lan\u00e7ado A Ilha (fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica). <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Decidi que o Centro seria o bairro principal do cen\u00e1rio. Fiz isso porque \u00e9 ali que os signos est\u00e3o numa verdadeira festa da linguagem. Com seu casario antigo, pr\u00e9dios modernos, largas avenidas e ruelas de paralelep\u00edpedos, frequentados pelos tipos mais diversos que voc\u00ea pode imaginar, dos certinhos aos malucos de carteirinha, o Centro do Rio \u00e9 cen\u00e1rio perfeito para um romance policial (Rubem Fonseca e Garcia-Roza que o digam). Andr\u00e9 mora em Copacabana (outro bairro bom para um romance policial) mas \u00e9 no Centro que a maior parte das cenas acontece e \u00e9 onde mora o Gordo. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Por fim, o enredo. Tinha uma ideia inicial b\u00e1sica. Precisando de grana e sem conseguir parar em nenhum emprego fixo, Andr\u00e9 resolve fazer um curso de detetive por correspond\u00eancia (isso existe), j\u00e1 que entende tudo do assunto e assim poderia continuar lendo seus romances \u2013 como se fosse a trabalho. Ele e o Gordo colocam um an\u00fancio no jornal. Aparece um primeiro cliente, querendo saber do paradeiro do filho, um adolescente que desapareceu sem deixar rastros. N\u00e3o h\u00e1 pedido de resgate, nem motivos aparentes para o desaparecimento, o garoto simplesmente sumiu. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">A partir da\u00ed fui montando a trama, que \u00e9 bastante movimentada, envolvendo o irm\u00e3o de Andr\u00e9 (os dois n\u00e3o se d\u00e3o nada bem), mulheres sedutoras (romance policial tem que ter mulheres sedutoras), criminosos, charlat\u00e3es (um escritor de autoajuda que escreveu um best seller chamado As flores do bem), virgens (meninos e meninas), falcatruas, algumas pistas falsas. E com humor. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">H\u00e1 sempre alguma dose de humor nos romances policiais. Ferino, ir\u00f4nico, escrachado, par\u00f3dico, o humor vai estar l\u00e1, um pouco que seja. Quis que meu romance fosse divertido, que tivesse os ingredientes pesados do g\u00eanero mas tamb\u00e9m alguma leveza \u2013 que busquei ao optar por um narrador meio ing\u00eanuo, com tra\u00e7os quase rom\u00e2nticos \u00e0s vezes, e ao escolher o humor como parte integrante do estilo de narrar deste detetive. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Se funcionou ou n\u00e3o, se a dupla Andr\u00e9 &amp; Gordo deu conta do recado, s\u00f3 cabe ao leitor dizer. Afinal n\u00e3o \u00e9 ele, leitor, o verdadeiro detetive?<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado no Jornal C\u00e2ndido (Curitiba), janeiro de 2012 Depoimento sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do romance policial O Campeonato Todo detetive \u00e9 um leitor. 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O escritor goiano vai lan\u00e7ar O Campeonato, ter\u00e7a-feira, na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro, onde reside h\u00e1 20 anos. O seu primeiro romance policial tamb\u00e9m vai ganhar\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Entrevistas&quot;","block_context":{"text":"Entrevistas","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/category\/entrevistas\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":423,"url":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2019\/05\/31\/a-ficcao-policial-de-flavio-carneiro\/","url_meta":{"origin":233,"position":4},"title":"A fic\u00e7\u00e3o policial de Fl\u00e1vio Carneiro","author":"admin","date":"31\/05\/2019","format":false,"excerpt":"Gismair Martins Teixeira Jornal O Popular, Caderno Magazine. Goi\u00e2nia, 12.01.2010 Em A Linguagem Liter\u00e1ria, o cr\u00edtico Dom\u00edcio Proen\u00e7a Filho afirma que n\u00e3o h\u00e1 uma perspectiva correspondente \u00e0 da gram\u00e1tica normativa em ling\u00fc\u00edstica para o universo da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Sobre o ato criativo nesta arte, diz ele textualmente: \"Seu \u00fanico espa\u00e7o\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Coment\u00e1rios&quot;","block_context":{"text":"Coment\u00e1rios","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/category\/comentarios\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":229,"url":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2018\/05\/14\/quem-escreve-deve-ter-paciencia\/","url_meta":{"origin":233,"position":5},"title":"Quem escreve deve ter paci\u00eancia","author":"admin","date":"14\/05\/2018","format":false,"excerpt":"Jornal Pernambuco, novembro de 2010 Entrevista concedida a Cristhiano Aguiar. Fl\u00e1vio, o que levou voc\u00ea a escrever o Leitor fingido? Voc\u00ea acha que a figura do \u201cleitor\u201d continua em segundo plano nas reflex\u00f5es liter\u00e1rias? Sempre achei que o of\u00edcio de escritor est\u00e1 diretamente relacionado a uma experi\u00eancia de leitura. 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