{"id":205,"date":"2018-05-14T11:23:43","date_gmt":"2018-05-14T14:23:43","guid":{"rendered":"http:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?p=205"},"modified":"2019-05-30T11:42:50","modified_gmt":"2019-05-30T14:42:50","slug":"me-escute-por-favor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2018\/05\/14\/me-escute-por-favor\/","title":{"rendered":"Me escute, por favor"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Jornal Rascunho. Curitiba, novembro de 2006.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <em>Entrevista concedida a Rog\u00e9rio Pereira.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>A declara\u00e7\u00e3o de Milton Hatoum na capa deste Rascunho (&#8220;O mundo, para mim, sem a literatura, viraria algo muito chato. Uma coisa sem sentido. Hoje, sem a literatura, n\u00e3o sei o que eu faria. N\u00e3o faria nada. Seria um bestalh\u00e3o.&#8221;) pode soar como um grande disparate para Fl\u00e1vio Carneiro, autor do rec\u00e9m-lan\u00e7ado A confiss\u00e3o. Doutor em literatura brasileira, esse goiano de 44 anos est\u00e1 longe de considerar a literatura uma das coisas mais importantes desta vida. Prefere o futebol. Parece ecoar como uma bela provoca\u00e7\u00e3o. &#8220;Kafka dizia que a \u00fanica coisa que lhe interessava era a literatura. Gosto de Kafka, mas n\u00e3o acho que a literatura seja a melhor coisa j\u00e1 inventada. H\u00e1 coisas mais interessantes. O futebol, por exemplo&#8221;, diz com certa ironia. O gosto pelos gols e dribles em nada atrapalha a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Prova disso \u00e9 a trama de A confiss\u00e3o &#8211; romance que o consolida entre os mais importantes autores contempor\u00e2neos brasileiros, ao lado do pr\u00f3prio Hatoum e de Cristov\u00e3o Tezza, Miguel Sanches Neto e Jo\u00e3o Gilberto Noll, entre outros.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <em>A confiss\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria estranha. Suas boas doses de fant\u00e1stico\/m\u00e1gico denunciam o apego de Fl\u00e1vio Carneiro a autores como Borges. Trata-se de um romance se sobrepondo a outro. Ou, ent\u00e3o, de muitas hist\u00f3rias dentro de uma hist\u00f3ria. Uma esp\u00e9cie de roda permanentemente em movimento. A come\u00e7ar pelo protagonista, cujo nome n\u00e3o se sabe e que tem como primeiro objetivo contar uma hist\u00f3ria. Mas s\u00e3o muitas delas. Estranhas, engra\u00e7adas, tristes. Tudo num ritmo dos mais alucinados. Ao leitor, cabe embarcar nessas in\u00fameras viagens por um mundo estranho e sedutor. O protagonista &#8211; que durante muito tempo sobreviveu vendendo livros roubados &#8211; amarra uma mulher a uma cadeira e deseja lhe contar algo. A primeira frase do livro \u00e9: &#8220;A senhora me escute, por favor&#8221;. \u00c9 tamb\u00e9m um convite ao leitor. Recomenda-se aceit\u00e1-lo.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <em>A partir da\u00ed, somos conduzidos a situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se misturando, se complicando um pouco mais, se resolvendo, sempre em busca de uma resposta. A mulher presa \u00e0 cadeira e os leitores se perguntando: &#8220;Aonde tudo isso vai nos levar?&#8221;. A cada p\u00e1gina aumenta a curiosidade para se desvendar o misterioso seq\u00fcestro. Quem \u00e9 o estranho protagonista contador de hist\u00f3rias? Qual ser\u00e1 o fim da indefesa senhora na cadeira? Com uma prosa segura e eficiente, o autor nos d\u00e1 uma convincente resposta.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <em>Nesta entrevista concedida por e-mail, Fl\u00e1vio Carneiro fala sobre sua literatura, sua atua\u00e7\u00e3o como cr\u00edtico liter\u00e1rio, a forma\u00e7\u00e3o dos leitores, literatura policial e, quase nada, sobre futebol.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><!--more--><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Al\u00e9m de escritor, o senhor exerce a cr\u00edtica liter\u00e1ria na imprensa. Em tempos de espa\u00e7os cada vez mais reduzidos para a literatura na m\u00eddia, que import\u00e2ncia e relev\u00e2ncia tem a cr\u00edtica para os leitores e escritores?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> A cr\u00edtica tem pelo menos dois pap\u00e9is importantes em todo o processo liter\u00e1rio. Um deles \u00e9 o de criar uma leitura mais aprofundada de determinada obra, ou de determinado autor, ou ainda de um tema, o que seria uma fun\u00e7\u00e3o mais restrita ao meio acad\u00eamico, embora possa interessar tamb\u00e9m a outros tipos de leitores. Um segundo papel \u00e9 o de apresentar ao leitor determinada obra, de forma clara, precisa e com consist\u00eancia te\u00f3rica, sem concess\u00f5es ao mercado editorial ou a amizades pessoais, e a\u00ed penso especificamente na resenha, na cr\u00edtica publicada em jornal e revista. Ambas as fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o imprescind\u00edveis para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade leitora. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>O senhor tem acompanhado de perto a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da nova gera\u00e7\u00e3o de escritores brasileiros. O que os une e os aproxima? H\u00e1 algu\u00e9m ou algum tema que sobressai neste in\u00edcio de s\u00e9culo 21?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Vivemos um per\u00edodo especialmente rico em nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. E isso desde a d\u00e9cada de 80. Tenho observado que a marca da fic\u00e7\u00e3o brasileira produzida nos \u00faltimos 25 anos \u00e9 n\u00e3o apenas a diversidade &#8211; que sempre esteve presente em nossa fic\u00e7\u00e3o, desde os rom\u00e2nticos &#8211; mas o di\u00e1logo entre as mais variadas vertentes. Ao contr\u00e1rio do que se via em outras \u00e9pocas, hoje h\u00e1 espa\u00e7o para a diferen\u00e7a. N\u00e3o se polariza a produ\u00e7\u00e3o entre esta e aquela vertente, como se via, por exemplo, nas primeiras gera\u00e7\u00f5es modernistas ou nos embates travados entre as vanguardas e a tradi\u00e7\u00e3o, em meados do s\u00e9culo 20. Da\u00ed, inclusive, eu achar despropositado falar, hoje, em &#8220;transgress\u00e3o&#8221;, usando os mesmos crit\u00e9rios da fic\u00e7\u00e3o modernista, ou seja, insistindo na id\u00e9ia de combate, de ruptura, etc. Isso n\u00e3o cabe mais na fic\u00e7\u00e3o atual. O que se v\u00ea \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o mais sutil, mais fina, que parece estar repetindo o antigo quando, na verdade, o est\u00e1 reescrevendo. \u00c9 isso que me interessa na narrativa brasileira atual, essa reescritura (e releitura, obviamente) da tradi\u00e7\u00e3o, sem as patrulhas de antigamente, sem cair na armadilha da transgress\u00e3o pela transgress\u00e3o. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Em sua fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito forte a presen\u00e7a de alguns escritores, como Jorge Luis Borges. Com quais autores o senhor mais &#8220;conversa&#8221; e como tais influ\u00eancias interferem em sua cria\u00e7\u00e3o?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Gosto de Borges por um tra\u00e7o da sua fic\u00e7\u00e3o que tem a ver justamente com o que falei na resposta anterior. Borges assume a escrita como um exerc\u00edcio de leitura. \u00c9 um leitor que escreve. Ele sabia que nunca se inventa o novo absoluto, que isso n\u00e3o existe, que toda inven\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre reinven\u00e7\u00e3o, e portanto escrever e ler \u00e9 sempre escrever e ler de novo. Al\u00e9m dele, mas tamb\u00e9m nessa linha &#8211; a da escrita como forma de leitura &#8211; gosto muito do Italo Calvino. Mas h\u00e1 outros e a lista vai me parecer incompleta, o que \u00e9 natural. Gosto muito do Paul Auster, do Rubem Fonseca, de Poe. E, sem d\u00favida, de Machado de Assis. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Como se formou\/construiu o escritor Fl\u00e1vio Carneiro?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> N\u00e3o saberia dizer ao certo. Tenho pensado ultimamente que os primeiros impulsos para contar hist\u00f3ria tenham vindo do meu pai. Ele e minha m\u00e3e nasceram em fazendas, em Goi\u00e1s, e s\u00f3 adultos se mudaram pra Goi\u00e2nia. N\u00e3o cresci no meio de livros mas de muito mato, rio, cachoeira, rua de terra, essas coisas. Mas meu pai era, e ainda \u00e9, um grande contador de hist\u00f3rias, desses que a gente quase n\u00e3o v\u00ea mais. E me lembro tamb\u00e9m de ele e minha m\u00e3e preparando, em forma de livro caseiro, as primeiras hist\u00f3rias que escrevi. Eram, na verdade, hist\u00f3rias recontadas (quem sabe j\u00e1 vem da\u00ed meu fasc\u00ednio pelas reescrituras), quer dizer, hist\u00f3rias que eu ouvia na escola &#8211; contos de fada, f\u00e1bulas &#8211; e reescrevia de mem\u00f3ria, quando chegava em casa. Colocava tudo no papel, mudando algumas partes, inserindo coisas, tirando outras. Depois meu pai datilografava tudo e minha m\u00e3e e eu faz\u00edamos a capa, usando aquelas t\u00e9cnicas de escola: desenho, colagem, etc. Depois veio a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, com minha ida pro Rio, quando tinha 18 anos. Fui com a cara e a coragem, sem conhecer ningu\u00e9m, sem parentes, achei que precisava de uma aventura dessas pra me tornar escritor de verdade. Passei no vestibular pra Letras, arrumei as malas, peguei o \u00f4nibus e fui embora. Os primeiros anos foram muito dif\u00edceis, claro, mas tamb\u00e9m muito importantes pra mim. Aprendi muito, tudo era novidade, o Rio n\u00e3o era ainda t\u00e3o violento e eu andava muito pela cidade, de dia, de noite, de madrugada. Acabei fazendo amizades que duram at\u00e9 hoje e que em grande parte giram em torno da literatura (e do futebol, minha outra paix\u00e3o). Acho que foi se construindo assim o escritor, com leituras variadas, de livro e de vida. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>A sua obra \u00e9 composta por literatura infanto-juvenil, romances adultos, policial e ensaio cr\u00edtico. Em qual destes mundos o senhor se sente mais \u00e0 vontade?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Me sinto mais \u00e0 vontade na fic\u00e7\u00e3o, e a\u00ed tanto faz que seja para adulto ou crian\u00e7a. O ensaio j\u00e1 n\u00e3o me atrai tanto, embora vez ou outra caminhe por a\u00ed. Basta ver que meu primeiro livro de ensaio, Entre o cristal e a chama, publicado pela editora da UERJ, foi meio h\u00edbrido, num di\u00e1logo com a fic\u00e7\u00e3o. Gosto mais de ler do que de escrever ensaios. E me sinto muito \u00e0 vontade tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o de roteiros, que \u00e9 um tipo de escrita que comecei a fazer h\u00e1 pouco tempo, se comparado com literatura, mas que sempre me atraiu. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>O senhor j\u00e1 escreveu dois roteiros (o do curta-metragem A noite do capit\u00e3o e do longa Bodas de papel, em parceria com Adriana Lisboa, e que ser\u00e1 produzido e dirigido por Andr\u00e9 Sturm. Ambos os filmes ser\u00e3o lan\u00e7ados em 2007). Como foi o trabalho e de que maneira a experi\u00eancia como escritor interferiu na execu\u00e7\u00e3o dos roteiros?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> S\u00e3o experi\u00eancias diferentes, claro. O escritor pensa com palavras. O roteirista, com imagens. No meu caso, foi uma viv\u00eancia muito rica, e nem sempre f\u00e1cil. Isso porque n\u00e3o se tratava apenas de uma novidade: escrever pra cinema, mas uma dupla novidade, porque tamb\u00e9m havia o fato de que eu estava escrevendo junto com outra pessoa. Eu e Adriana \u00e9ramos casados quando escrevemos o Bodas de papel e viv\u00edamos diariamente a hist\u00f3ria. S\u00f3 que Adriana tem um estilo diferente do meu, e isso precisou ser trabalhado tamb\u00e9m. Pensamos juntos o argumento do roteiro e depois inventamos um m\u00e9todo. Faz\u00edamos juntos apenas a indica\u00e7\u00e3o, a sinopse das cenas, e depois um se encarregava de escrever algumas dessas cenas. Depois o outro relia o j\u00e1 escrito, modificava o que quisesse e dava seq\u00fc\u00eancia. E assim fomos seguindo, muitas vezes com s\u00e9rias diverg\u00eancias, que felizmente acabaram se resolvendo no final. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Apesar de algumas boas incurs\u00f5es pela literatura policial (Rubem Fonseca, Rubens Figueiredo, Tabajara Ruas, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Joaquim Nogueira, entre outros), este g\u00eanero n\u00e3o tem muita tradi\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria liter\u00e1ria brasileira. O que causa essa &#8220;repulsa&#8221; pelo g\u00eanero policial entre os autores, j\u00e1 que ele tem um bom p\u00fablico consumidor no mercado brasileiro?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Na verdade, o g\u00eanero policial j\u00e1 est\u00e1 presente em nossa fic\u00e7\u00e3o desde o s\u00e9culo 19, com Alu\u00edsio Azevedo, e vai se desenvolver tamb\u00e9m em todo o s\u00e9culo 20, mas \u00e9 certo que em doses menores que outros g\u00eaneros e, principalmente, em outro espa\u00e7o, o da cultura popular. Acredito que isso tenha acontecido porque houve sempre certo preconceito com uma fic\u00e7\u00e3o mais popular, como o policial, o western, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Muitas pessoas l\u00eaem esses g\u00eaneros nessas edi\u00e7\u00f5es de bolso, de banca de revista, de autores desconhecidos, que escrevem de forma vertiginosa, algo como um livro por m\u00eas, ou em tradu\u00e7\u00f5es feitas meio \u00e0s pressas tamb\u00e9m. Me lembro de um tio que adorava esses livros e me emprestava alguns, quando eu era adolescente. Eu gostava muito tamb\u00e9m, devorava os livros. O que quero dizer \u00e9 que o policial sempre teve seu espa\u00e7o, mas fora do mundo acad\u00eamico ou da chamada &#8220;alta&#8221; literatura. Com Rubem Fonseca, no final dos anos 60, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar. Ele foi fundamental nessa mudan\u00e7a, nessa percep\u00e7\u00e3o de que se pode fazer fic\u00e7\u00e3o policial de boa qualidade, ou de que n\u00e3o existem g\u00eaneros &#8220;nobres&#8221; e g\u00eaneros &#8220;plebeus&#8221;. O preconceito foi, em grande parte, incentivado pelos modernistas, que solidificaram essa diferen\u00e7a entre alta e baixa culturas, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>O senhor defende que a literatura n\u00e3o deve ter nenhuma fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. No entanto, de que maneira ela, como manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pode intervir no mundo real, mesmo desprovida de qualquer pretens\u00e3o?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Acredito que a literatura tem como \u00fanica fun\u00e7\u00e3o abrir as portas do imagin\u00e1rio &#8211; do escritor e do leitor. Em A aula, Barthes comenta que toda l\u00edngua \u00e9 fascista, porque o fascismo, mais do que impedir de dizer, \u00e9 obrigar a dizer. Quando aprendemos a l\u00edngua materna, por exemplo, entramos em contato com um mundo novo e pagamos alto por isso: o esquecimento do mundo antigo, feito de pura imagina\u00e7\u00e3o, quando o contato com pessoas, animais e coisas era completamente m\u00e1gico e quase sempre inusitado. A l\u00edngua nos \u00e9 dada para que nos comuniquemos, para que tornemos poss\u00edvel o di\u00e1logo com o outro, mas isso em troca de tudo o que t\u00ednhamos antes. Agora, se temos fome, precisamos dizer: estou com fome, e n\u00e3o apontar para o seio da m\u00e3e, ou chorar, ou qualquer outra forma de dizer isso. Pois a literatura nos traz de volta este mundo primitivo. A palavra po\u00e9tica estabelece o caos, instaura o reino dos v\u00e1rios significados, e \u00e9 este caos que nos salva, porque nos libera da necess\u00e1ria opress\u00e3o imposta pela l\u00edngua e nos remete de volta \u00e0 inf\u00e2ncia, ao tempo da imagina\u00e7\u00e3o e da eterna descoberta. \u00c9 isso que sentimos diante de um bom livro: o gosto pela aventura, com todos os riscos que ela possa trazer. E \u00e9 pra isso que serve a literatura, n\u00e3o para ensinar nada, nem dar li\u00e7\u00f5es de moral, nem para nos transmitir ideologia, seja ela qual for. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>No ensaio Sobre a escrita e o estilo, Schopenhauer defende que &#8220;h\u00e1 tr\u00eas tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da mem\u00f3ria, de reminisc\u00eancias, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe \u00e9 mais numerosa. Em segundo lugar, h\u00e1 os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. S\u00e3o bastante numerosos. Em terceiro lugar, h\u00e1 os que pensaram antes de se p\u00f4r a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. S\u00e3o raros&#8221;. Em qual dessas categorias o senhor se situa, se enquadra?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Em nenhuma e um pouco em todas. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Hoje, fala-se muito no &#8220;sil\u00eancio dos intelectuais&#8221;. Ou seja, haveria uma participa\u00e7\u00e3o t\u00edmida (ou quase nula) por parte dos intelectuais na vida cotidiana do pa\u00eds. O senhor concorda com isso? De que maneira os intelectuais (incluindo os escritores) podem contribuir para ampliar e fortalecer as discuss\u00f5es sobre o que nos cerca?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> N\u00e3o acho que haja sil\u00eancio dos intelectuais. Eles est\u00e3o a\u00ed, escrevendo nos jornais, falando na televis\u00e3o, no r\u00e1dio, dando aulas, publicando artigos e livros. O que mais se espera deles? Que peguem em armas? H\u00e1 v\u00e1rias formas de contribuir para uma sociedade melhor. Essa id\u00e9ia do &#8220;sil\u00eancio dos intelectuais&#8221; foi uma coisa pontual, espec\u00edfica, que acabou ganhando uma repercuss\u00e3o que n\u00e3o devia, em grande parte por motivos pol\u00edticos. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Como \u00e9 o seu processo de cria\u00e7\u00e3o? Como se deu, por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de A confiss\u00e3o?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Normalmente parto de uma id\u00e9ia, uma impress\u00e3o, e antes de pass\u00e1-la pro papel vou convivendo com ela. O Drummond dizia: convive com teu poema antes de escrev\u00ea-lo. Acredito nisso, acho que voc\u00ea deve conviver mais com seu personagem, com o cen\u00e1rio da sua hist\u00f3ria, com o enredo, antes de escrever. Normalmente vou fazendo anota\u00e7\u00f5es ou s\u00f3 pensando mesmo, sem colocar nada no papel. Antigamente era mais ansioso, achava que se n\u00e3o anotasse logo uma id\u00e9ia iria me esquecer dela. Hoje penso diferente: se a id\u00e9ia \u00e9 boa, vai retornar, n\u00e3o vai embora assim n\u00e3o. O melhor \u00e9 ir vivendo, trabalhando, levando sua vida normal, sem deixar de carregar com voc\u00ea a sua hist\u00f3ria, que vai amadurecendo aos poucos, em sil\u00eancio, esperando a hora certa de ser escrita. Isso aconteceu com A confiss\u00e3o. Comecei a escrever o livro e vi que estava ficando dif\u00edcil, n\u00e3o era algo prazeroso, a cada vez que me sentava diante do computador era um sacrif\u00edcio. Ent\u00e3o simplesmente guardei os originais na gaveta e parti para um outro romance, O campeonato, um policial. Sem que me desse conta, o texto foi fluindo naturalmente, foi uma escrita muito divertida, eu me pegava rindo sozinho no meio da noite, no meu escrit\u00f3rio, feito um maluco. Depois que terminei O campeonato, resolvi retomar A confiss\u00e3o, e a\u00ed foi muito bom escrev\u00ea-lo. \u00c0s vezes acontece isso, voc\u00ea precisa de um livro que n\u00e3o \u00e9 aquele que voc\u00ea est\u00e1 escrevendo mas outro, que fica espreitando voc\u00ea, bem quieto no seu canto, s\u00f3 esperando uma chance. Naquele primeiro momento ainda n\u00e3o era a hora de A confiss\u00e3o, foi o que percebi mais tarde. Quando chegou sua vez, o livro foi se desenhando com muita nitidez na minha frente: eu queria uma hist\u00f3ria que puxasse outra hist\u00f3ria, e esta uma terceira, e esta uma outra. Algo como As mil e uma noites, por exemplo, mas com outro tom, mais forte, mais coeso e, em certa medida, mais l\u00edrico tamb\u00e9m. Da\u00ed fui construindo o narrador, um homem com muitas hist\u00f3rias pra contar, algumas delas assustadoras, outras nem tanto, e que tem diante de si uma mulher muito especial, sua ouvinte. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Ao dedicar-se \u00e0 literatura infanto-juvenil, presume-se que o senhor tenha a preocupa\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o do leitor do futuro. Esta \u00e9 uma discuss\u00e3o constante no mundo da literatura. Quais os caminhos mais indicados para se formar um bom leitor?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Sua pergunta \u00e9 precisa: quais os caminhos? De fato, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico caminho, n\u00e3o h\u00e1 uma receita. Durante muitos anos trabalhei com programas de incentivo \u00e0 leitura, em especial o Proler, da Biblioteca Nacional, criado por Eliana Yunes durante a gest\u00e3o de Affonso Romano de Sant&#8217;Anna. Foi um longo e dif\u00edcil aprendizado, que me levou de volta ao in\u00edcio: n\u00e3o h\u00e1 receita. Talvez o que haja em comum entre as atividades de quem lida com projetos de incentivo \u00e0 leitura, al\u00e9m de professores e pais, e escritores, seja um \u00fanico fato: um leitor se forma a partir de outro leitor &#8211; que deve ser, este, um leitor apaixonado. O melhor m\u00e9todo continua a ser o da paix\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea precisa ler isso&#8221;, \u00e9 o que dizemos a quem amamos. Pense em como voc\u00ea chegou ao seu primeiro livro, ao primeiro livro que voc\u00ea leu e que o encantou. Algu\u00e9m, de alguma forma, levou voc\u00ea at\u00e9 ele. Pode ter sido sem querer, tudo bem, algu\u00e9m pode ter lhe apresentado este primeiro livro sem nem se dar conta do que estava fazendo, mas \u00e9 certo que, se voc\u00ea gostou do livro, \u00e9 porque, de algum modo, algu\u00e9m antes de voc\u00ea lhe apontou a exist\u00eancia desse novo prazer, o de ler. O escritor deve pensar nisso, na possibilidade de ser n\u00e3o o primeiro na vida do seu leitor, mas aquele que tem por fun\u00e7\u00e3o dar continuidade ao jogo, n\u00e3o deixando que o leitor se v\u00e1, entediado, frustrado por n\u00e3o ter encontrado ali o prazer que lhe prometeram e que ele vivenciou antes, num livro anterior. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Em A confiss\u00e3o, o personagem central est\u00e1 sempre em movimento. \u00c9 um andarilho pelo mundo. Estes movimentos, esta eterna busca de algo, encontram-se com for\u00e7a em autores como Chico Buarque e Jo\u00e3o Gilberto Noll. A insatisfa\u00e7\u00e3o e as ang\u00fastias que movem o seu personagem tamb\u00e9m s\u00e3o bons motivos para impulsionar a constru\u00e7\u00e3o de sua obra ficcional?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> N\u00e3o sei se as andan\u00e7as do meu personagem t\u00eam a ver com as do Chico e do Noll. Vejo neles algo diferente, a figura do n\u00e3o-her\u00f3i, do an\u00f4nimo que vai sendo levado pelos acontecimentos, perdido no turbilh\u00e3o da metr\u00f3pole. Acho que o narrador de A confiss\u00e3o, embora esteja tamb\u00e9m um pouco perdido, est\u00e1 sempre em movimento porque busca uma resposta (que talvez n\u00e3o encontre nunca, quem sabe porque n\u00e3o exista uma resposta). Acho que ele ainda acredita em alguma coisa, embora n\u00e3o saiba exatamente que coisa \u00e9 essa. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o fant\u00e1stico, que funciona como elemento condutor da hist\u00f3ria e que move o narrador, e faz com ele viaje pelo mundo e se depare com situa\u00e7\u00f5es inusitadas por aonde quer que v\u00e1. Na verdade, o que me impulsionou a cri\u00e1-lo desse jeito n\u00e3o foi exatamente a id\u00e9ia da insatisfa\u00e7\u00e3o ou da ang\u00fastia, mas do gosto pela aventura. Acredito que ele goste disso, da aventura, da descoberta. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Por que escrever romances em tempos de barb\u00e1rie por quase todos os lados? O que mais o atrai na literatura?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> N\u00e3o se escreve romance para diminuir a barb\u00e1rie, pelo menos n\u00e3o acredito nisso. Um escritor escreve porque sente vontade de escrever, porque sente necessidade de fazer o que faz. Naturalmente, o resultado do que faz pode ajudar as pessoas a serem menos b\u00e1rbaras, mas essa n\u00e3o \u00e9 necessariamente a fun\u00e7\u00e3o do romance. Como disse anteriormente, a fun\u00e7\u00e3o do escritor \u00e9 dar de comer \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o do leitor, \u00e9 aliment\u00e1-la, com cuidado, com apuro, com carinho, mesmo quando parece estar querendo insultar o leitor, ou choc\u00e1-lo de alguma maneira. Mesmo a\u00ed o escritor deve ter em mente que precisa do leitor, e que o livro que ele escreve deve manter viva a chama que j\u00e1 existe no seu leitor. O que mais me atrai na literatura \u00e9 isso, ser parte de uma esp\u00e9cie de seita secreta &#8211; a das artes em geral &#8211; que se move nas sombras do dia-a-dia, entre uma fila de banco, uma cadeira de dentista, um dia estafante no escrit\u00f3rio. E se move buscando novos adeptos, capazes de sair do mundo real e voltar novamente a ele quando necess\u00e1rio, s\u00f3 que agora diferentes de quando partiram &#8211; menos b\u00e1rbaros, sem d\u00favida. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Mario Vargas Llosa acredita que &#8220;a literatura \u00e9 a melhor coisa j\u00e1 inventada para nos defender contra o infort\u00fanio&#8221;. O senhor concorda com esta afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Ele tem raz\u00e3o, em certo sentido. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outras formas de nos defendermos contra o infort\u00fanio. Kafka dizia que a \u00fanica coisa que lhe interessava era a literatura. N\u00e3o sou dessas pessoas que acreditam em &#8216;\u00fanicas coisas&#8217;. Gosto de Kafka, mas n\u00e3o acho que literatura seja a melhor coisa j\u00e1 inventada. H\u00e1 coisas mais interessantes. O futebol, por exemplo. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Todo grande leitor \u00e9 tamb\u00e9m um escritor em potencial?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Todo leitor \u00e9 um criador em potencial. N\u00e3o digo que seja necessariamente um escritor, porque h\u00e1 outras coisas envolvidas no ato da escrita, h\u00e1 uma t\u00e9cnica, etc. Mas sem d\u00favida todo leitor de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um ficcionista em potencial, como todo leitor de poesia \u00e9 um poeta em potencial. A diferen\u00e7a \u00e9 que o produto da leitura nem sempre se materializa no papel, o que n\u00e3o quer dizer que seja menos rico, ou menos importante, do que o livro em si. S\u00e3o experimenta\u00e7\u00f5es diferentes, mas ambas apontam para o imagin\u00e1rio, para a cria\u00e7\u00e3o. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>O que torna um escritor imprescind\u00edvel para seu leitor?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> N\u00e3o sei. Talvez o fato de acreditar na sua (do leitor) intelig\u00eancia e na sua capacidade de imaginar, de ir al\u00e9m do que lhe ensinaram como manual de sobreviv\u00eancia em sociedade. Os autores que julgo imprescind\u00edveis para mim, enquanto leitor, s\u00e3o aqueles que acreditaram em mim, que apostaram em mim. Novamente lembro Barthes, agora em O prazer do texto. L\u00e1 ele diz: &#8220;O texto que o senhor escreve tem de me dar a prova de que ele me deseja.&#8221; Acho que isso \u00e9 que torna o escritor valioso, isso \u00e9 que o torna imprescind\u00edvel para seu leitor: o livro deve ser a prova de um desejo. Se o leitor percebe esse desejo, e corresponde a ele, o pacto est\u00e1 selado, para sempre. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> <strong>Se o senhor fosse obrigado a escolher apenas um livro para ler pelo resto de sua vida, qual seria? Por qu\u00ea?<\/strong> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"> Espero n\u00e3o ser obrigado a isso. Seria uma tortura. Acho que nem o melhor dos livros resiste a essa responsabilidade de ser o \u00fanico na vida de um leitor.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornal Rascunho. Curitiba, novembro de 2006. Entrevista concedida a Rog\u00e9rio Pereira. 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A trajet\u00f3ria de uma obra s\u00f3 se completa quando ela \u00e9 lida. No entanto, h\u00e1 quem n\u00e3o se importe com os leitores. Na\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Entrevistas&quot;","block_context":{"text":"Entrevistas","link":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/category\/entrevistas\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":401,"url":"https:\/\/flaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/2019\/05\/31\/a-materia-futebolistica-dos-sonhos\/","url_meta":{"origin":205,"position":5},"title":"A Mat\u00e9ria Futebol\u00edstica dos Sonhos","author":"admin","date":"31\/05\/2019","format":false,"excerpt":"Manuel da Costa Pinto Folha de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo, 16.05.2009 \u00c9 comum apaixonados por literatura e futebol se queixarem de haver poucos romances relevantes sobre o esporte no pa\u00eds pentacampe\u00e3o do mundo. 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